
CINEMA
O pop britânico fala alto no cinema
20/Mai/2002
24 Hour Party People, que estreou em Cannes na semana passada, tem tudo para se transformar no ‘queridinho’ filme cult de 2002
por KLEBER MENDONÇA FILHO
Enviado especial
CANNES – O candidato a cult de 2002 chama-se 24 Hour Party People (Inglaterra, 2002), de Michael Winterbottom, pop-filme que participa da Mostra Competitiva, no Festival de Cannes. Trata-se de um relato estridente, carinhoso e muito engraçado da cena musical de Manchester, Inglaterra, entre 1976 e 1992, período que cobre do punk ao acid house até o início da cultura ecstasy + DJ. Tem como guia o homem que esteve por trás de toda essa movimentação, Tony Wilson, um apresentador de TV formado em Cambridge que, com um seleto grupo de ‘idiotas’, agitou a cena pop de lá criando o selo Factory, a boate Hacienda e preparando o terreno para o surgimento de bandas hoje clássicas do pop como Joy Division, New Order e Happy Mondays.
Todo rodado em formato digital (DV), 24 Hour Party People é ficção, com forte dose de documento, muito embora o alter-ego de Wilson no filme (o ótimo ator Steve Coogan) deixe bem claro, citando John Ford, que “na dúvida entre a verdade e a lenda, fique sempre com a lenda”. E são muitas as lendas, como seria de esperar de um movimento (ou ‘cena’) protagonizada por tanta gente que quis, e fez, muita arte, nos múltiplos sentidos dessa já muy gasta palavra.
Wilson tinha um programa de TV regional (exibido pela Granada Television) que abriu espaço para bandas como The Sex Pistols e Siouxie and the Banshees, ainda nos anos 70. Descobriu o Joy Division e o filme presta solene tributo a Ian Curtis, estourando na trilha sonora troféus da banda como She’s lost control, Love will tear us apart e Atmosphere. O ator encarregado de ressuscitar Curtis (que enforcou-se em 1980 para uma Manchester estupefata), Sean Harris, é incrível, e dá ao filme um ar de documentário.
Surge então o New Order. O disco Blue Monday transforma-se no compacto de 12 polegadas mais vendido da história e, nem por isso, Wilson e os seus amigos, à frente da Factory, mudam a base de um business (negócio) que não era exatamente ‘business’: o contrato foi escrito em sangue numa folha de papel por todos eles e previa total liberdade para os artistas que ali gravassem, e 50% de quaisquer que fossem os lucros.
É difícil assistir a 24 Hour Party People e não lembrar do que aconteceu no Recife nos anos 90 (manguebeat), ou em Seattle (grunge). O filme é engraçado de uma maneira britânica e na sua forma pop. Cheio de falas tipo “o jazz é o último refúgio dos que não têm nenhum talento” (dita por Wilson) ou “A guitarra fica muito bem pendurada em você, agora tente tocá-la” (essa do produtor Martin Hannett, para alguém do New Order), 24 Hour Party People prova que são os ingleses que devem ter preferência nos filmes sobre música.
Norte-americanos fazendo pop-rock-filmes resultam em coisinhas flácidas como os recentes Quase Famosos e Alta Fidelidade. Já os ingleses, que fizeram Velvet Goldmine, The Commitments, Pink Floyd: the Wall, O Lixo e a Fúria e, agora, esse aqui, dão ao formato dignidade. Britânicos têm conhecimento de causa e a emoção que imprimem a esse tipo de tema me parece 100% genuína.